Seminário “Políticas culturais autárquicas: a cereja em cima do bolo?”

Organizado pelo CEFA

Fundação de Serralves
8 de Abril de 2008




Caro Professor Luís Campos e Cunha,

Caro Director do CEFA,

Professor Jorge Barreto Xavier,

Conferencistas desta primeira sessão

Participantes provenientes de mais três dezenas de autarquias do país

Estou aqui, nesta iniciativa, num plano que tem a ver com as funções que, circunstancialmente, hoje desempenho no Governo, mas também com um sentido de satisfação e de prazer que não marcam, como compreenderão, todas as acções a que, diariamente, somos chamados a participar. Esta é uma iniciativa muito singular. Trata-se de um encontro feliz entre dois mundos que se tocam e que, a partir daqui, estão disponíveis para um percurso comum.

A Fundação de Serralves é uma instituição do mundo situada no Porto. É uma instituição que, nas suas características peculiares de associação com participação privada e pública, no seu modelo único de governação, garantiu um espaço próprio que é hoje uma referência no domínio da arte contemporânea num contexto global e uma referência de sucesso na vivência do espaço pela cidade, pelos que aqui moram e pelos que aqui trabalham.

As autarquias locais, em 30 anos de democracia, tiveram prioridades no domínio da resposta a necessidades básicas. Daí que o título provocatório que é dado a esta primeira sessão – se a cultura é, ou não, a cereja no bolo, no âmbito das políticas públicas locais – lembra a forma como a cultura era vista, subjectivamente ou activamente, no quadro da intervenção local.

Julgo que esta expressão já não corresponde, hoje, à verdade dos factos, tendo em conta - como disse o comissário desta iniciativa, Jorge Barreto Xavier – o que são hoje os orçamentos de cultura de todos os municípios e o que são experiências plurais de multiplicação de casos de excelência.

Temos um belo Centro de Arte Contemporânea em Elvas, o que foge à lógica tão portuguesa, tão centralista, de Lisboa “porque sim”, porque é a capital; do Porto, pela tradição ou porque é a “capital do norte”, de Coimbra porque é a cidade dos doutores. Há que fugir a esta lógica, e hoje, felizmente, temos variadíssimas experiências para enunciar. Como a de Guimarães, um exemplo de vivência de recuperação do património como factor de competitividade que fará com que esta seja a primeira cidade portuguesa, fora daquelas de que falei, a ser Capital Europeia da Cultura em 2012. E se me permitem ser saudavelmente bairrista, este domínio das políticas locais é também a valorização da identidade das pequenas coisas que nos dizem muito. Nos anos em que fui presidente de uma Assembleia Municipal de uma zona hoje muito falada, mas com problemas óbvios de desindustrialização, de crise de identidade face ao seu modelo de século XX – o Barreiro - avançaram dois nichos completamente diferentes – um Museu Industrial, com a memória da maior plataforma industrial do século XX, e a Ilustrarte, um dos três grandes certames europeus de ilustração para a infância.

Devemos, assim, valorizar o que é o orgulho da identidade local e regional, nestes tempos de globalização, reinventando o que é próprio de cada zona e compatibilizando-o com a plena abertura ao mundo.

E aqui, neste conjunto de seminário, o cruzamento entre mais de três dezenas de exemplos de políticas culturais municipais com a experiência de Serralves - que desta maneira, afirmada nas estrelas, chega à terra e às pequenas coisas - permite domínios vastíssimos a serem percorridos até Outubro.

Estamos a falar, por exemplo, do papel mais clássico do património, para o qual há uma estratégia nacional e políticas urbanas de reabilitação como factor de competitividade, mas também da igualdade que as novas tecnologias permitem no acesso ao que de melhor se produz no último bairro da moda de Nova Iorque, de Londres ou da criativa Berlim, ou das produções que surgem fora destes modelos mais eurocêntricos ou americanocêntricos. Hoje, as novas tecnologias permitem-nos levar o conhecimento destas realidades ao pequeno município, à pequena freguesia.

Mas estamos a falar também de uma dimensão económica e sustentável, que ultrapassa o anátema da subsidiodependência e da tal “cereja”, que olha para a gestão dos espaços culturais e para a actividade cultural como factor de promoção e de competitividade de territórios.

Estas conferências têm um carácter plural e uma dimensão arrojada, cujo sucesso dependerá de todos e da dinâmica que for aqui criada. O desafio que nos foi lançado deve envolver-nos a todos: até Outubro, a partir do que aqui for produzido, conseguirmos elaborar a Carta de Serralves para as Políticas Culturais Locais.

Parabéns a todos os que estiveram na origem deste projecto, que começou por ser uma ideia feliz e que é hoje uma realidade com os dados lançados. Cabe-nos a nós garantir que o resultado final seja um sucesso

Obrigado